Coitadistas contra a autopiedade

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Maria Lúcia tomava doze medicamentos entre tranquilizantes e antidepressivos quando a atendi pela primeira vez. Estava doente há dez anos. Era depressiva, solitária, negativista, insociável. A cada dez palavras que proferia, nove eram para reclamar da vida. Não saía de casa nos últimos anos. Era professora, mas não exercia a profissão. Considerava-se imprestável para estar à frente de uma classe. Seu marido não ganhava o suficiente para suprir as necessidades da casa. Considerava seu marido um fraco; ele se calava porque dependia do pai dela para completar o orçamento familiar. Eram cúmplices de sua miséria sem terem consciência plena disso.

O pai ia diariamente cuidar da filha. Ele a elogiava, a levava aos médicos, acariciava, valorizava, aconselhava, mas Maria Lúcia não reagia. Nenhum medicamento fazia efeito. Diariamente dizia que estava passando mal, que sua vida não tinha sentido. Às vezes, tinha crises dramáticas em que batia a cabeça na parede. Seu pai era chamado às pressas para socorrê-la.

No início do tratamento, estimulei-a a sair da platéia, a entrar no palco e dirigir o roteiro da sua vida. Mas ela preferia ser uma atriz figurante. A prática do coitadismo a impedia de decifrar seu potencial intelectual. Tinha medo de ser ela mesma. Se melhorasse, quem dela teria piedade ? Como poderia sugar a energia dos seus filhos, marido e, em especial, do seu pai ?

Sim, ela estava realmente doente, não estava simulando, mas não sabia que havia aprendido a usar sua doença para ter ganhos secundários, para ter migalhas de prazer e atenção. Os meses se passaram e pouca a pouca foi lapidando seu Eu para sair da platéia. Resistia em deixar de ser doente, embora conscientemente o quisesse.

Como a vida tem acidentes imprevisíveis, um dia sua mãe morreu. Tempos depois, seu pai arrumou outra esposa e em poucas semanas ela entrou em choque com a madrasta. Foi um caos. O pai se afastou da filha, o dinheiro secou, a superatenção se evaporou. E agora ? Tinha de sair do útero da sua casa e se virar no útero social. Foi o que fez. A mulher coitadista decifrou vários códigos da inteligência.

Começou a resgatar seus sonhos e a lutar por eles. Começou a enfrentar sus crises e seus sintomas sem apoio de ninguém. Começou a enfrentar seus fantasmas interiores. Para quem não saía da cama, era uma tarefa árdua. Mas pouco a pouco a “imprestável” profissional começou a brilhar como professora. Rompeu as algemas psicossociais que financiavam sua doença e libertou sua inteligência.

Fonte: O código da inteligência (por Augusto Cury).

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